quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

5: COISAS DO CORAÇÃO

Já se cansava o dia quando chegou Joezito à bagunça que se chamava de vilazinha. A bruxa era quem tinha dito onde achar a gente e tinha valido pelo menos por isso a pena ter (se) fodido. Tinha? Joe viu aquilo pouco e se lembrou da Cidade e ficou meio desconsolado pensando onde caralho é que eu vim parar, my god. Queria poder desmorrer e desnascer voltando pro corpo da Mãe, e pra poder esquecer esse freudinismo que ele sempre achara um saco, sentou no banco de uma bodeguinha pra tomar uma cachacinha e fumar um cigarrinho.

Ficou por ali, pitu numa mão derby na outra, olhando os sertanejos que escorriam pela terra batida, achando tudo aquilo mezzo melancólico, mezzo pitoresco. Mas reparou que de quando em quando passava umas menininhas gostosinhas, que a princípio animaram, mas depois fizeram lembrar de Jéssica, a amada que o abandonara pra ficar com a vida, e aí ele desanimou outra vez e chorou, mas um pouquizito só, pra que nenhuma dessas pessoas incompreensíveis zombassem do fato dele ser só um cara sensível.

Só que se o amor une a pitu separa, e foi quando depois de meia dúzia de garrafas ele viu uma morena faceira dos cabelos cacheados que ele levantou de súbito exclamando quando vê a perfeição o homem sábio se move morena do rabo grande eu quero ser o seu love e a menina bamboleou as pernas porque não há mulher por mais feminista que seja que não se desmanche por um poeta. Joe levou ela prum canto e comeu muito.

Quando o sol descansou e lambeu a cara de Joe ele acordou com os óio amargando e a boca que não enxerga nada, maldizendo do fundo da alma o filho da puta que inventou o só mais uma dose, eu agüento. Mas foi quando ele olhou pro lado que ele percebeu o quanto a realidade é maleável e que se a fenomenologia não convenceu muito foi porque ela não usou como argumento o elemento pitu. Do seu lado estava a mulher mais feia que ele já tinha comido, levando em consideração que a velinha estava mais pra uma espécie de gnomo. Feia e provavelmente muito sonsa ou cínica, pois não percebeu a cara de nojo de Joe e sorria como que apaixonada. De fato: acordou querido?, e Joe: eu queria que não!, e ela: sabe, eu nem ia sair de casa ontem, mas acho que o destino me fez mudar de idéia, e por isso eu resolvi passear pela rua, e Joe: eu queria que não!, e ela: sabe, você foi incrível ontem, o melhor de todo o mundo, e Joe, com o ego meio inflando: hé, eu queria que não..., e ela: sabe, faz muito tempo que eu pedi a minha deusa por um amor, será que você é ele?, e Joe, se levantando pra sentar pelado, pose de canalhão, acende um cigarro, dá um trago, sopra a fumaça: é que eu não costumo me apegar facilmente às pessoas...

Pra tudo há limite até mesmo pro coração in love, e essa a moça não agüentou. Com os olhos molhados de ódio e indignação levantou-se com tudo gritando papaaaaai e a porta explodiu com o bico de um gigante de chapéu terno e bigode gritando mas que porra é essa? Era o pai da moça e o que Joe não tinha como saber é que o gigante era o coronel da vizinhança que mandava e desmandava nas almas da região. Ao ver aquele neguinho pelado na cama com a filha pelada o Coronel ficou vermelho e babou: seu filho da puta, o que foi que tu fez?, e ela: ele me desvirtuou, paiê, e Joe: mas foi sem querer!, e ela: e não quer casar!, e o Coronel: agora tu vai ter que casar muleque, senão eu te capo e te fodo com teu pau, e Joe: eu caso, eu caso, eu caso!

Mas o Coronel não queria casar a filhinha com um menino de rua qualquer, feio sujo e pobre, e pensou em matar Joe de qualquer jeito, mas a filhinha ia ficar muito tristinha a coitada, e ele teve que usar a superioridade intelectual dos mais ricos pra achar solução, achou: muleque, tu acha que as coisas são assim, que tu pode comer minha filha e virar meu genro pra depois ficar com minhas terras e meus sertanejos, tu ta muito enganado cabra safado, pra poder casar com minha filha vai ter que provar que é macho, não, nem adianta fazer essa pose agora, esconda essas suas vergonhas que homem nenhum banca o foda pelado na frente de outro homem, tu vai ter que fazer mais do que levantar o pau, vai ter que mostrar que tem coragem e que é forte, é o seguinte, minha cidade ta sendo ameaçada por uns desordeiros de merda que roubam as coisas dos meus súditos, ninguém consegue mais juntar nada aqui porque eles tomam tudo, e só quem tem o direito concedido por Deus de roubar dos outros aqui sou eu, então o senhor, seu maloqueiro, pra provar que é macho e digno da minha flor, vai ter que acabar com a praga desses bandoleiros malditos, porque senão quem vai acabar com a praga de tu sou eu mesmo!, e Joe que não podia fazer muita coisa concordou na hora e ainda fez pose de macho pra não ficar muito por baixo do discurso do gigante. Assim o Coronel solucionava o problema porque não tinha condições de Joe acabar com mais de duzentos bandoleiros, informação preciosa que ele tinha esquecido inocentemente de anunciar.

A vilazinha então viu nascer seu novo herói, e foi com um pouco de pena que ela viu Joe partir pra sua peleja fadada à desgraça. Mas antes de ir Joe subiu num palanque e fez um discurso que ficou marcado pra sempre na memória do povo da vilazinha:

6: O DISCURSO ou Um Pouco de Material Didático Para os Formalistas, Estruturalistas, Semiologistas e Psicanalistas:

Introdução: blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá.

Retrospectiva/ explicação/ contextualização: Homem x Cidade, Realidade x Fantasia, Vida x Morte, Juventude x Velhice, Beleza x Feiúra, Romantismo x Canalhice, Forte x Fraco = linguagem.

Verificação do horizonte de expectativas/ confirmação/ garantia do entendimento:

JOE

(= o menino/adulto, construção de uma personalidade, o caminho do herói, representação simbólica de uma pluralidade social/ psíquica, [ ] )

                            seta

A METEMPSICOSE

(transfiguração do ser: Joe é e não é; qual realidade é possível?)

                             seta

A VELHA

(figura maternal; iniciação sexual/ Édipo = indicação do caminho social)

                             seta

A VILA/ A MORENA

(projeção da realidade antes da transcendência: a Cidade e Jéssica)

                             seta

O CORONEL/ GIGANTE

(O pai: castração; força opressora, capitalismo, ideologia burguesa da possibilidade de escolha:)

  setas

Morrer = enfrentar                                                  Morrer = enfrentar

o Gigante                                                                             os Bandoleiros

                                                                                                 (desconhecida)

seta esquerda

             

O DISCURSO

(prova de coragem; metalinguagem; VERDADEIRA REALIDADE)

Finalização: objetivo: causar comoção; resultado: positivo; forma: blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá.

E tenho dito!

(aplausos, assobios e ovações)

7: DA GRANDE CORAGEM DO HERÓI E DAS CONSEQUÊNCIAS DESTA SUA FANTÁSTICA QUALIDADE

Nem mesmo o sábio Apolo tinha pena do destino do nosso herói e castigava seu corpo hercúleo com labaredas incandescentes. Este agüentava com fleuma sobre-humana o calor opressor, protegendo-se apenas com um chapéu de couro presenteado pelas mãos virginais de sua amada noiva. Olhou para o horizonte filosoficamente e seu olhar presenciou os perigos que a terra inóspita e vermelha como sangue preparava para ele. No entanto, seu coração não estremeceu nem por um instante ao defrontar-se com a ruína dos mortais, e o herói subiu em cima de um rochedo monumental exclamando:

- Não temo fera, fúria ou foice! Antes a morte honrada do que a vida desmerecida! Que venham os vilões, os desastres e os Fados: não importa o que me aconteça, hei de vencer! Sou bravo, sou forte, sou filho da sorte!

A Natureza toda recuou ante a bravura do herói; mas o horizonte continuava à frente, a desafiar sua coragem. O herói seguiu adiante, sem recuar ou desistir, e atravessou precipício, floresta e montanha. Os pés calejados vertiam sangue, o suor escorria por todo seu corpo, o cansaço era terrível; aves de rapina rodopiavam sobre sua cabeça agourando sua contenda, esperançosas de que se tratasse de mais um reles humano comum; mas morreriam de fome se continuassem a esperar que o herói perecesse, pois não poderia chegar assim a morte a um semi-deus e seu destino era maior do que poderia esperar a sua vã sabedoria.

Chegou a noite implacável no mesmo instante em que chegou ao esconderijo dos bandidos o nosso herói. O vigia do bando assustou-se ao perceber que se aproximava tão imponente figura, e, tremendo de pavor, só conseguiu perguntar:

- Quem vem lá?

Saiu da escuridão o herói, e o pobre lacaio quase desmaiou de pânico. Nesse momento poderia o herói ter esmagado o crânio do serviçal com seu punho titânico, mas por ser piedoso, apenas respondeu à pergunta olhando de cima com sua voz de trovão:

- Sou o herói, defensor da justiça e protetor dos fracos, e meu destino é destruir os perversos e acabar com a vileza. Mostrai-me teu mestre, fétido gatuno, e deixá-lo-ei viver como prova de minha magnitude e generosidade!

O pobre diabo não teve coragem para responder, destituído que estava de forças. Mas num esforço homérico, voltou-se e conduziu o herói até a toca dos bandidos. Chegando lá, gritou pelo seu chefe com voz esganiçada e este foi seu último ato, pois logo depois caiu morto de esgotamento.

O chefe do bando era um homem alto e poderoso, altivo em sua maldade e capaz de matar com apenas um olhar. Sua visão encontrou com a do herói, e o mundo pareceu parar enquanto esses dois gigantes se mediam mutuamente. Finalmente o vilão falou:

- Quem és tu, que te atreves a adentrar na morada do grande Siegfried von der Krieg?

E o herói, magistralmente:

- Sou o herói, defensor da justiça e protetor dos fracos, e meu destino é destruir os perversos e acabar com a vileza. Viajei milhares de léguas desde a vilazinha até aqui, com o objetivo de aniquilar de vez por todas com toda a injustiça que vem sido cometida!

- Então tu vieste da vilazinha? – perguntou Siegfried von der Krieg entre os dentes. – Homens!

E então, como que surgidos das profundezas do Tártaro, apareceram os 200 capangas do vilão, vestidos em trapos e empunhando armas afiadas; estavam mais para bestas atrozes do que para homens, imundos e sedentos de sangue e morte, seus olhos faiscando na escuridão tal como criaturas infernais que espreitam a vítima, babando e cuspindo animalescamente.

Ao encarar tal cena aterradora o herói respirou fundo, invocou as Musas e preparou seu melhor discurso:

- Já vos disse anteriormente, sou o herói e não temo o perigo. Travei milhares de batalhas com a tormenta, com a desgraça e com a loucura. Meu destino é exterminar a injustiça, e creio que jamais vi tanta injustiça antes e toda minha existência. Claro está quem comete toda essa miséria que presenciei: os habitantes daquela vilazinha, os verdadeiros vilões em ambos os sentidos das palavras, comandados pelo gigante Coronel que explora e vive da desgraça alheia. Não esperava encontrar-vos neste deplorável estado, vivendo na miséria e na sujeira, sem ter o que comer e vestir, sem o abrigo de um teto para se proteger da chuva, do vento e do frio, sem um lugar para chamar de lar, separados da sociedade e dos bons costumes. Neste lugar esquecido mesmo pelo bom Deus, pai de todos nós, estais vós, encolhidos como animais acuados, protegendo-se da caçada implacável daqueles que vos oprimem, temem e odeiam. Consideram-vos monstros, assassinos e animais, mas não sabem que na verdade eles é que são os monstros, os covardes, que tiraram de vós todo o direito que qualquer filho de Deus possui de conviver pacificamente entre os seus irmãos: é fácil olhar para um mendigo e chamar-lhe de besta; o difícil é continuar mantendo a dignidade quando não se tem o que comer e onde morar. Gritam e praguejam quando vós tirais-lhes de quando em vez algo para comer, algum pequeno enfeite para se produzir, ou quando tendes relações carnais à força com alguma de suas filhas; mas parecem se esquecer que a culpa é toda deles, que vos negaram tudo isso, que vos colocam à margem, que resolveram, por preguiça ou por maldade, simplesmente colocar de lado e fingir que não existe um problema que eles mesmos, junto com esse sistema socioeconômico dominador e anti-humanista, criaram. Não, meus queridos, meus irmãos, não permitirei que essa injustiça continue: vim de muito longe, enfrentando o sol implacável, as montanhas abomináveis, a Natureza destruidora, para poder finalmente acabar com esse abuso. Pois que vim, na minha condição de herói, guiar-vos pelos caminhos terríveis por mim já desvendados e mostrar-vos o melhor lugar para atacar a vilazinha, seu ponto de menor proteção, e destruir para sempre aquela corja de opressores, juntamente com seu líder, o tirano e inumano gigante Coronel. E assim, meus pequenos, poderemos finalmente construir uma sociedade melhor para os que sofrem injustamente, e teremos um merecido lugar para chamarmos de lar, sobre a proteção da Justiça na terra e de Deus nos céus. E tenho dito!

A poderosa voz do herói ressoou por toda a toca. Seguiu-se um silêncio profundo, no qual o herói, com o peito estufado, olhava triunfante para todos aqueles homens, que por sua vez olhavam admirados o herói. Mas logo o silêncio foi quebrado por milhões de aplausos, assobios e ovações, e os homens gritavam em coro: “Herói, herói, herói!”. O herói tornou-se brilhante como um anjo, fez um sinal para seus seguidores alucinados e disse: “Sigam-me os bons!”. E os conduziu em direção à vilazinha, para travarem sua última batalha contra a crueldade, através de montanha e floresta. Mas quando chegaram ao precipício o herói se esqueceu de avisar o que estava adiante, e como a escuridão da noite ainda era profunda, os 201 homens não viram onde pisavam, caíram do precipício e morreram todos.

Na vilazinha fizeram festa por uma semana em homenagem ao grande feito do herói.

Sete Dias no Cabaré:

uma peça dramática composta para Joe e orquestra

8: CENA PRIMEIRA:

O bordel de Pierre Tabaca, o puta mais chic de toda frança. Vozes entrecortam a música sincopada: num palco decorado com papel crepom, um trio de forró arrocha um avant-garde de foder. As putas no colo dos homens de bem no colo das mulheres de bem. A festa já dura 6 dias. Surrealisticamente bêbado o gigante sobre no palco com um copo de scottish whisky com gelo de água de sanitário. O copo erguido parece mais segurá-lo do que ele o copo. Um brinde a Joe:

CORONEL:

Quero propor aqui um brinde ao meu novo genro, um filho da puta (com todo respeito à sua Mãezinha) macho de verdade, o homem que limpou nossa vilazinha daqueles bandoleiros de merda, José Severino, o nosso Joe!

OS APLAUSOS:

Êêêêêêêêêêêêêêêêêêê!!!

O GAIATO:

Êêêêêêmánocuêêêêêê!

JOE:

(modestamente) Meus queridos, não precisa tanto. Só fiz o que qualquer homem de bem, o que qualquer homem apaixonado faria. É, Ferreira, a minha puta ta ali encostada.

MORENA FACEIRA DOS CABELOS CACHEADOS:

(orgulhosa) Esse é meu macho.

JOE:

Cala a boca, sua vaca.

OS SÁDICOS:

Bate nela Joe, bate nela!

MORENA FACEIRA DOS CABELOS CACHEADOS:

(excitada) Bate mesmo meu nego, bate gostoso!

JOE:

(modestamente) Ok meus fãs, se vocês insistem, eu bato. Mas saibam que como qualquer ser civilizado, eu não gosto de violência sem propósito.

OS APLAUSOS:

Êêêêêêêêêêêêêêêêêêê!!!

Joe agarra a noiva pelos cabelos, que geme de tesão. Dá uns tapas na cara dela, cospe e boceja. Ela pede mais. Ele chuta ela na barriga, ela se contorce de prazer. Ele apaga um cigarro no umbigo dela, ela grita, ele se anima e pisa nas costelas dela. Ela pede mais. Joe, de pau duro, dá uma cabeçada no nariz dela, uma rasteira e quebra uma cadeira nas costas dela. Eles estão quase lá. Ele arranca as unhas dela, dá marteladas nos seus ombros, marca ela com ferro quente e finaliza quebrando os dentes dela no meio-fio. Os dois gozam e se deitam abraçados no chão.

CORONEL:

(emocionado) Meus pombinhos...

PIERRE TABACA:

(afetado) Ces´t l´amour... Nosso Joê é um rapaz que gosta do que é bom...

JOE:

E você sabe o que é?

PIERRE TABACA:

Mais do que você pensa, garçon.

JOE:

E o que você vai fazer?

PIERRE TABACA:

O que você quiser, mon cherrie.

JOE:

Vem com tudo então!

Pierre Tabaca levanta a saia e aponta seu caralho gigante. Joe a principio se assusta, mas depois se rende: Pierre Tabaca o enraba como se fosse um puta qualquer. Joe resiste bravamente, mas não agüenta até o final e rejeita.

JOE:

(eufórico e ofegante) Viado filho da puta, tu não sabe é de nada!

PIERRE TABACA:

(arrogantemente) Quem não pode se morde.

JOE:

(sobe no palco e acende um cigarro) A verdade, ladies and gentlemen, é que não nasci pra transgredir. Assumo minha condição de burguês, cristão e heterossexual.

OS APLAUSOS:

Joe é nosso herói!

O PAI DE SANTO:

Axé!

O TRIO DE FORRÓ:

Djiiinnnn... zaragudêgo, baracutibum, dá! Perumpempem, baragudadodegodegoziricundegogadagoberum... diguridadiriguidu!

O NARRADOR:

Freneticamente desenrola-se a vitória. Um pequeno anão cospe fogo no céu crespo do bordel, que se delicia com a pimentez. Chovem; ou melhor, chove-se. A lucidez se esconde nos buracos dos ralos, envergonhada. The muffin man e The fool on the hill fazem um 69 em cima do colo de um crítico de arte. Ele se masturba, voyeour, até gozar e se limpa no caderno de cultura de um folhetim. As pessoas sorriem. Alguém choca ao se abrir ao contrário, mas ninguém repara. Faxineiros escorrem de rodo suor e vinho. Estouram um champanha: Joe no colo do gigante parece um boneco de ventríloquo. Pedro Noiado nóia; ele pede pra cagar e sai de fininho. As pessoas sorriem. Um grupo de escoteiros pede uma colher pra ferver heroína; eles se picam e transformam numa gosma profundamente púrpura; um pedófilo aproveita e bebe tudo. Ninguém é inocente. Agora alguém é, mas foi embora. Olhares se destroem ao se refletirem; eles só queriam alguém pra amar. Uma pomba-gira sobe no palco pra tocar violino. Isso também é dialogo.

9: O DEBATE ou Uma Pequena Ajuda a Todos Os Ignorantes

Um Crítico: Mas que porra é essa?

Outro Crítico: Isso é kitch meu irmão, isso é kitch!

Mais um Crítico: Me parece muito mais algo meio beat...

O Primeiro Crítico: Cala a boca porra, tu não sabe é de nada!

E Mais um Crítico: Vejam bem, cuidado para não cair no impressionismo...

O Outro Crítico: Aborto modernista; não sei nem se é literatura!

O Mais um Crítico: Concordo com nosso colega, a gente devia estudar melhor a estrutura, se ater à ciência, pra poder chegar a uma conclusão...

O Primeiro Crítico: Ah, não vem com esse papo estruturalista não.

O Mais um Crítico: Não ponha palavras na minha boca.

O Outro Crítico: Se for, é claramente literatura marginal.

O E Mais um Crítico: Conseqüência da pós-modernidade...

Um Crítico Inteligente: Amigos, calma, não se desesperem que eu explico; isso é Picarianismo.

Todos Os Ignorantes: o que?

10: CENA SEGUNDA:

A pomba-gira violinista toca paganini. Junta-se a ela um Tupi, que antes tocava alaúde, mas que modernizou-se e agora toca violão. Joe larga o charuto para escutar mais de perto; a música delicia sua erudição.

JOE:

Ah, a Arte! Como podemos viver sem ela? A Arte é o que nos faz humanos, que nos une com o Sublime, com a Beleza e com a Verdade! Não temos artistas por aqui? O que é a elite sem a arte erudita?

O UFANISTA:

Nós temos o nosso poeta!

JOE:

Onde? Tragam-nos o poeta!

O POETA:

Meu herói, estou aqui!

JOE:

Ó, meu poeta, derramai sobre nós tua sabedoria!

O POETA:

Quero vos falar, queridos, sobre a nova poesia que aflora nos mais altos círculos poéticos! Quero falar-vos de nós, os novos poetas, o que queremos e o que trazemos de novo e de único ao Cânone Literário!

O CABARÉ:

Falai-nos, Ó, menestrel!

O POETA:

(anda até o centro do palco; luz única em cima dele) ARTE é shape. Shape é carne. Carne é sexo. Sexo é arte.

Nova Poesia: defesa do que é mais humano. A linguagem mais sublime do que há de mais grotesco: a verdadeira dialética de nossa existência. Arte pelo gozo pela arte.

Queremos a melodia dos gemidos a propagar-se em ondas pelo que há de mais filosófico nos conventos e de mais religioso nas academias. O estalar de hímens como um Kyrie Eleison para nossa moralidade ocidental. Os neologismos de uma língua feroz movimentando-se habilmente até prazerar-nos com o orgasmo. Mente sã corpo são.

Nova Poesia: o arco de Jean Luc Ponty a masturbar as pernas abertas da Retórica. Sublimação de Eros. Síntese do instinto e da razão: a verdadeira poesia humana.

Queremos mais do que o simples êxtase estético: queremos a junção da carne com o espírito, queremos marcar o livro da história literária com sangue, suor e esperma, queremos a morte da ignorância, queremos o materialismo poético, queremos o pior, o mais sujo e o mais pérfido, queremos o mais vil, o mais orgulhoso, o mais humano.

Só a putaria nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Alfabetize-se!

UM ACADÊMICO:

(enojado) Ora, mais isso é desprezível!

JOE:

(irritado) Como é? Quem é tu pra falar isso do poeta? Mas quem diabos foi que deixou essa escória entrar? Vamos, guilhotinem esse idiota!

Uma trupe de palhaços segura o acadêmico pelos braços e empurra sua cabeça na guilhotina. Revoltado, ele ainda exclama, antes de ter sua cabeça decepada:

UM ACADÊMICO:

Isso não fica assim! Vou colocar tudo isso no meu relatório final!

A GUILHOTINA:

Liberdade, Igualdade, Fraternidade! Tchak!

JOE:

Mas por que pararam a música? Vamos, toquem, eu quero animação!

O TRIO DE FORRÓ:

Xerungudegunburigudiguduraguterecutecutirigudagudummmmmmmmm... parurá!

A POMBA-GIRA VIOLINISTA:

Ziiiimmm... Tirirurin, riririmm...

O TUPI MALANDRO:

Blémblémblóm... tchantchentchun, blimblomblim!

SCHOEMBERG:

Sie spielen sehr gut, nicht wahr?

JIMI HENDRIX:

To achando que falta um pouco de feeling... que cê acha, Arrigo?

ARRIGO BARNABÉ:

Eu AchO Do CaRAlhO!

JOE:

(inspirado) A poesia e a música são as artes mais sublimes que nossa criatividade já pode inventar: uma por dizer tudo e a outra por não dizer nada. Em ambos os casos nós podemos nos alegrar e apreciar sem remorsos a sua completa inutilidade. E se nos identificamos tanto com elas é porque, nesse aspecto, elas nos representam de maneira especial. Pois é o que fazemos, não é senhores, não é essa a nossa especialidade? Sermos inúteis? Servirmos como modelo para os outros? Todos querem, no íntimo, chegar a não servir pra nada, é o topo da escala evolutiva. É o nosso Nirvana materialista.

OS APLAUSOS:

Joe é nosso filósofo!

JOE:

(modestamente) Meus queridos, não precisa tanto. Se digo tudo isso é porque o fato de estar com tão ilustres companhias é inspirador a qualquer intelecto superior. De onde venho não me seria possível ir tão alto nas minhas filosofias. De onde venho é tudo muito pequeno, muito mundano... mas... (indeciso) de... onde... venho?

O NARRADOR:

Para dentro de sua memória ele estava se perdendo. Uma embriagues passadista recortava pedaços de si e os apontava como se fossem de outro: confundia-se com ele mesmo. Juntava-se com a roda da ciranda que dançavam ao som de Henry Cow, mas era criança, adulto, velho e apaixonado. Confusão, loucura, realidade. Num momento sua perna grudou-se ao rabo de um cachorro, mas ele sacudiu a cabeça e tudo foi embora, só havia ficado a roda. A roda era uma só coisa. É fruto da bebida, do baseado, da carreirinha, do pico, dos doces e da porra toda, só pode ser, é preciso não viajar demais. Eu digo, ele diz, mas ninguém sabe. Estamos sós aqui; quem é inocente? Isso é dialogo, e só ele te salva. Meu nome é Bakhtin. Mas você... quem é você?